October 13, 2020
De parte de Coletivo Anarquista Bandeira Negra
1,940 puntos de vista

A esquerda organizada e combativa ├ę sempre atacada pela classe dominante joinvilense. Procuram acabar com as lutas oper├írias, estudantis, art├şsticas e comunit├írias, seja pela repress├úo estatal ou de for├žas privadas. A tentativa de apagamento das lutas populares ├ę outra maneira de exercer a repress├úo, como se resistir ao capitalismo e a todas as formas de opress├Áes fosse coisa de ÔÇťgente de foraÔÇŁ, j├í que Joinville ├ę uma cidade ÔÇťpacataÔÇŁ, ÔÇťordeiraÔÇŁ e trabalhadoraÔÇŁ, avessa ├ás subvers├Áes. Infelizmente, a hist├│ria das classes oprimidas e suas express├Áes de luta em Joinville, como o movimento oper├írio, n├úo recebeu ainda um estudo sistem├ítico, somente pesquisas dispersas. Por├ęm, ├ę a partir desses trabalhos que apresentamos as linhas a seguir.

O ano de 2020 ├ę um ano emblem├ítico para questionarmos o apagamento promovido pelos ricos e poderosos da cidade do ÔÇťPr├şncipeÔÇŁ. H├í 100 anos a classe oper├íria local demonstrou a sua rela├ž├úo org├ónica com as manifesta├ž├Áes e os anseios por vida digna da classe oper├íria em todo o territ├│rio do pa├şs, uma classe composta por trabalhadores e trabalhadoras brasileiras e imigrantes, sendo fundamental destacar a presen├ža de trabalhadoras negras e negros na cidade, assim como nas lutas oper├írias por todo o pa├şs.

Este cart├úo-postal mostra a rua do Pr├şncipe na d├ęcada de 1910. Embora a foto n├úo tenha a data exata, ├ę poss├şvel dizer que ela foi tirada ap├│s 1913. A sede do Clube Joinville, que aparece ao fundo, foi inaugurada em 1913. J├í a linha de bondes, cujos trilhos aparecem na imagem, funcionou de 1911 a 1917. ├Ç direita, o escrit├│rio de Abdon Baptista e Oscar Schneider.

Nos primeiros anos do s├ęculo XX, Joinville passava por um processo de industrializa├ž├úo, resultado de  acumula├ž├úo de riquezas por meio da explora├ž├úo dos recursos naturais; observava a concentra├ž├úo de 50% da terra nas m├úos de 5% da popula├ž├úo; e convivia com os resqu├şcios vivos da escraviza├ž├úo da popula├ž├úo negra anterior ├á forma├ž├úo da Rep├║blica, da expuls├úo dos povos ind├şgenas para o interior e a explora├ž├úo da m├úo de obra assalariada de negros, imigrantes, migrantes e nascidos na cidade (CUNHA, 2004; FERREIRA, 2019).

Segundo Iara Costa, a cidade foi se ÔÇťtransformando no maior centro industrial catarinense, e antes de 1920 j├í possu├şa mais de 43 estabelecimentos, o maior n├║mero de r├ęis e m├úo de obra aplicado neste setor. No entanto, o modelo econ├┤mico brasileiro, via na ind├║stria t├¬xtil a inspira├ž├úo do desenvolvimento, apoiado nas inter-rela├ž├Áes bin├┤micas do caf├ę-ind├║stria.ÔÇŁ (COSTA, 1996, p. 23)

E foi no processo do fazer capitalista da cidade, que a classe operária realizou a suas lutas. Entre os anos 1907 e 1911, com base em reportagens do jornal Gazeta de Joinville, organizou-se a Liga Operária e de Classes Anexas de Joinville, realizando eventos de sociabilidade, brechós, passeatas alusivas ao 1º de maio, a defesa da liberdade de imprensa e do socialismo.

Nos anos seguintes at├ę 1920, na terra da ÔÇťordemÔÇŁ, diversas greves marcaram o cotidiano do espa├žo urbano que se formava. Em julho de 1917, a greve geral surgida em S├úo Paulo se fez presente em Jonville com a ades├úo de ferrovi├írios, mec├ónicos, pedreiros, carpinteiros, cervejeiros, oper├írios de f├íbrica de f├│sforos, costureiras e padeiros. Evento que representa o quanto o movimento oper├írio local estava por dentro dos levantes oper├írios em diferentes capitais brasileiras.

3º Congresso Operário

No cap├ştulo ÔÇťConstruindo a resist├¬ncia urbanaÔÇŁ, de sua disserta├ž├úo, Iara Costa afirma que ÔÇť[ÔÇŽ] os sal├írios foram reajustados somente 20%, mas que em troca foram prometidos uma cooperativa alimentar aos oper├írios pelo pre├žo de custo, diminuindo e barateando o custo de vida, e sugest├Áes para ajudar na constru├ž├úo de algumas casas oper├írias nas imedia├ž├Áes das f├íbricas, para diminuir os gastos com condu├ž├ÁesÔÇŁ (COSTA, 1996, p. 153).

O fato ├ę que as agita├ž├Áes oper├írias ecoaram as condi├ž├Áes de vida dos mais pobres e tamb├ęm representaram para a classe dominante local o poder de organiza├ž├úo e mobiliza├ž├úo da classe oper├íria urbana.

No ano de 1919, os jornais locais afirmam existir um tensionamento com poss├şvel in├şcio de uma greve por 8 horas de trabalho, aumento de 30% nos sal├írios e um sal├írio-m├şnimo para os trabalhadores auxiliares. A mesma imprensa d├í ind├şcio que a movimenta├ž├úo paredista foi reprimida. Em Joinville, tamb├ęm marca o per├şodo a greve dos padeiros em 1920, reivindicando o direito ao descanso aos domingos.

No aspecto pol├ştico, o movimento oper├írio debatia a necessidade da solidariedade de classe e, no ├ómbito t├ítico, debatia se deveria organizar a classe em torno da greve geral ou por categoria. Um debate fundamental do sindicalismo revolucion├írio mundial, que foi fortemente marcado pela atua├ž├úo dos e das anarquistas, al├ęm da presen├ža de outras correntes socialistas.

O segmento mais expressivo da ÔÇťclasse que tudo produzÔÇŁ estava organizado a Confedera├ž├úo Oper├íria Brasileira, que havia realizado o 1┬║ Congresso Oper├írio Brasileiro em abril de 1906, no Rio de Janeiro. ├ë nesse congresso que a organiza├ž├úo firma o como estatuto um sindicalismo revolucion├írio por meio de sindicatos livres, a a├ž├úo direta, a solidariedade de classe, o internacionalismo, federalismo, antimilitarismo e o que ficou conhecido por neutralidade sindical, ou seja, que a entidade n├úo faria a filia├ž├úo de trabalhadores por recorte pol├ştico-ideol├│gico, mas reuniria toda a classe┬▓. O meios de difus├úo da linha pol├ştica da COB inclu├şam o jornal, a educa├ž├úo e o teatro. Em 1913, novamente na capital federal da ├ępoca, foi realizado o segundo Congresso Oper├írio Brasileiro, que reafirmou os encaminhamentos do primeiro congresso (MATEUS, 2013).

Em 23 de abril de 1920 ÔÇô III Congresso Oper├írio Brasileiro ÔÇô Sede da Uni├úo dos Trabalhadores em F├íbrica de tecidos, Rua do Acre, Rio de Janeiro. Congresso ocorrido entre os dias 23 a 30 de abril efetuaram 23 sess├Áes com a presen├ža de 39 organiza├ž├Áes de 11 Estados do Brasil.

├ë frente ano contexto apresentado que, em 1920, a experi├¬ncia do movimento oper├írio joinvilense se encontra diretamente com as lutas do cen├írio nacional. Nas semanas anteriores ao 3┬║ Congresso Oper├írio, segundo Iara Costa, em Joinville realizou-se ÔÇťuma sess├úo preliminar do Congresso Brasileiro de Oper├írios, achando-se numerosos representantes de associa├ž├Áes oper├írias, demonstrando que estes estavam engajados nos movimentos nacionais.ÔÇŁ (COSTA, 1996, p. 157).

A capital federal foi palco do terceiro Congresso em abril de 1920 e, ÔÇťdefendeu a prioridade da sindicaliza├ž├úo por ind├║strias, em ÔÇśdetrimento da organiza├ž├úo por of├şciosÔÇÖ, sendo que as decis├Áes dos congressos anteriores s├úo reafirmadas com certas quest├Áes particulares do pr├│prio contexto. Essa resolu├ž├úo que aprovara a prefer├¬ncias pelos sindicatos de ind├║stria em detrimento dos de com├ęrcio ├ę bastante clara.ÔÇŁ (MATEUS, 2013, p. 9) O evento ficou marcado por sua abordagem internacionalista, inclusive com apoio a aos revolucion├írios mexicanos, russos e um protesto contra ao assassinato de Rosa Luxemburgo.

As manifesta├ž├Áes da rebeldia urbana no fazer-se enquanto classe tiveram continuidade com um chamado para greve geral. Os jornais burgueses locais, no m├¬s de outubro, diziam que estavam envolvidos os ÔÇťoper├írios de cal├žados, marceneiros, trabalhadores da constru├ž├úo civil, metal├║rgicos, maleiros, tapeceiros e os empregados em bares, caf├ęs e o sindicato culin├írioÔÇŁ (COSTA, 1996, p. 157).

Em dezembro de 1920, os mesmos jornais apresentaram a reivindica├ž├úo dos padeiros para terem um dia de folga por semana, conquistado por meio de uma lei municipal assinada pelo Conselho Municipal. Sendo assim, a noite de domingo para segunda-feira tornou-se o dia de folga.

As lutas por vida digna estiveram presentes no processo de forma├ž├úo social da cidade de Joinville, mesmo quando os governantes e os patr├Áes utilizaram da imprensa burguesa da ├ępoca, das for├žas repressivas estatais e das demiss├Áes para reprimir aqueles e aquelas que organizaram e resistiram. Demonstra├ž├Áes realizadas em nosso pr├│prio solo que mostram que n├úo existe domina├ž├úo que n├úo seja respondida com organiza├ž├úo, luta e conquistas de nossa parte, as e os de baixo.

Notas

1. O artigo ├ę parte o esfor├žo do Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN), integrante da Coordena├ž├úo Anarquista Brasileira (CAB), em identificar as hist├│rias e mem├│rias das classes oprimidas, suas manifesta├ž├Áes pol├şticas de resist├¬ncia e organiza├ž├úo, assim como de sua cultura e arte. Sugerimos tamb├ęm a exposi├ž├úo ÔÇť100 anos da Greve Geral de 1917ÔÇŁ , o relato das atividades alusivas ao centen├írio da greve em 1917 e o livreto ÔÇťMarcas Libert├írias: epis├│dios anarquistas em Santa Catarina (1848 ÔÇô 2011)ÔÇŁ, a ser publicado pelo CABN.

2. ├ë recorrente na historiografia brasileira classificar a atua├ž├úo anarquista junto ao movimento oper├írio na Primeira Rep├║blica (1889ÔÇô1930) como anarcos-sindicalismo. Ou seja, as organiza├ž├Áes sindicais mantinham um estatuto e programa pol├ştico de orienta├ž├úo anarquista para a sociedade futura, como foi hegem├┤nico na Federa├ž├úo Oper├íria Regional Argentina (FORA) e Federa├ž├úo Oper├íria Regional Uruguai (FORU). No entanto, hegemonicamente, a atua├ž├úo anarquista no movimento oper├írio brasileiro, adotou princ├şpios e programa em di├ílogo com o sindicalismo revolucion├írio nos moldes da Confedera├ž├úo Geral dos Trabalhadores (CGT) francesa.

COSTA, Iara Andrade. A cidade da ordem: tens├Áes sociais e controle (Joinville 1917/1943). UFPR, Curitiba, 1996

CUNHA, Dilney F. Mito e realidade sobre a g├¬nese e o desenvolvimento da cidade. Revista Ontem e hoje, mar├žo de 2004

FERREIRA, Luiz Matheus da Silva Ferreira. Terra, trabalho e ind├║stria na Col├┤nia de Imigrantes Dona Francisca (Joinville), Santa Catarina, 1850 ÔÇô 1920). USP, 2019

MATEUS, Jo├úo Gabriel da Fonseca. O sindicalismo revolucion├írio como estrat├ęgia dos Congressos Oper├írios (1906, 1913, 1920). Instituto de Teoria e Hist├│ria do Anarquismo, 2013. Consultado no dia 14 de junho de 2020.




Fuente: Cabn.libertar.org