May 2, 2021
De parte de EZLN
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May022021

O Embarque.

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Do caderno do Gato-Cachorro:

O Embarque.

La Montaña foi embarcada no dia 30 de abril de 2021. O navio estava ancorado a cerca de 50 braças do porto, «alejado del bullicio/ y la falsa sociedad» (1). À sua volta, as gaivotas, corvos-marinhos, fragatas, guarás e até mesmo um beija-flor cândido, perdido, procurava fazer um ninho no púlpito do arco. No casco, abaixo da linha d’água, golfinhos-garrafa tamborilavam uma cumbia, um tubarão-baleia carregava o ritmo com suas barbatanas e a arraia-manta espalhava suas asas pretas como cadeiras voando.

O grupo bucaneiro era liderado pelo Subcomandante Insurgente Moisés que, com uma tropa formada por uma tercia insurgenta, um choferólogo e mecânico insurgente, um choferólogo de base, 5 terci@s, uma comandanta e dois comandantes, assistia para despedir a delegação marítima, o Esquadrão 421, e verificar, in situ, que a embarcação tinha o que era necessário para a epopeia náutica. Uma equipe de apoio da Comissão Sexta estava presente para escrever os obituários dos caídos em ação.

Não houve resistência por parte da tripulação. De fato, desde antes o capitão havia ordenado içar, por catracas, uma grande manta com a imagem que identifica a delegação marítima zapatista, acrescentando assim a La Montaña, com toda a tripulação incluída, à luta pela vida. Com a armação desfeita, mais luzia e impetuoso cintilava o símbolo do delírio zapatista.

Então, digamos, foi um embarque consensual. Não houve nenhuma intenção agressiva por parte da tropa zapatista, nem por parte dos marinheiros anfitriões. E pode-se dizer que, entre nós e os marinheiros de La Montaña, houve uma espécie de cumplicidade. Embora, na primeira reunião, el@s tenham ficado tão surpres@s quanto nós.

E teríamos ficado lá, olhando uns para os outros e sem movimento, não fosse o fato de, avançando da popa, um inseto extraordinariamente semelhante a um besouro, gritar: «A bordo! Se são muitos, corremos! Se são poucos, nos escondemos! E se não há nenhum, avante, pois para morrer nascemos!». Foi isso que decidiu tudo. A tripulação parecia estupefata com o bichinho e nós… não sabíamos se pedíamos desculpas pela irrupção ou nos juntávamos ao ataque pirata.

O Subcomandante Insurgente Moisés achou que era o momento certo para as apresentações, então ele disse: «Boa tarde. Meu nome é Moisés, Subcomandante Insurgente Moisés, e este é…«. Quando ele se virou para apresentar a tropa, SubMoy notou que ninguém estava lá.

Todos passeavam pelo barco com mal dissimuladas mostras de alegria e entusiasmo: as companheiras delegadas, como rainhas do Caribe, acenavam do lado do porto para os barcos cheios de turistas que os olhavam com curiosidade e escândalo, talvez surpresos que, com este calor, as compas vestiam longas anáguas. Especialmente porque as turistas estavam usando biquínis que, ao menos por uma vez, bem despojados, você não acreditaria. Marijose foi para a proa e de lá contemplou a casa de Ixchel, e pensava para si que não usaria seus hiper ultra mini shorts, porque não precisava humilhar as cidadãs com sua sensualité.

Os Comandantes David e Hortensia davam as últimas recomendações a Lupita com um sorriso que transbordava a máscara. O Comandante Zebedeo repetia para si mesmo: «Não vou ficar tonto, não vou ficar tonto», que é o antiemético que SupGaleano lhe recomendou.

@s terci@s (4 homens, uma compa e uma insurgenta), por sua vez, tiravam fotos e vídeos de tudo, e quando eu digo «tudo», quero dizer tudo. Portanto, não se surpreenda se as fotos mostrarem apenas clarabóias, cordas, a corrente de âncora, guincho, molinete, orinque, lonas, baldes para tirar água, e outras coisas típicas de um navio prestes a atravessar o Atlântico na nobre missão de invadir, quero dizer, conquistar, quero dizer, visitar a Europa.

O Marcelino e o Monarca perguntaram pela casa das máquinas e, não sei de onde, tiraram uma caixa de ferramentas e, com um alicate e chaves de fenda, foram para onde achavam que o motor deveria estar porque, explicaram a um capitão espantado, pelo som se deduzia que precisava de afinação. Bernal e Felipe (ajuda de Darío – que teve que ficar em terra para o passaporte de sua prole -, 49 anos, nativo de Tzeltal; fala fluentemente tzeltal e castilho; pai de 4 – o mais velho tem 23 anos e o mais jovem 13 -; foi miliciano, sargento, líder local, conselho autônomo em MAREZ, diretoria do bom governo, professor da escurlita e motorista; música que ele gosta: romântico, rancheras, banda, cumbias, revolucionárias; cores favoritas: preto, azul e cinza; preparado 6 meses como delegado; voluntário para viajar de barco se alguém não pudesse; experiência marítima: nula), juntou-se à equipe mecânica Zapatista (para que, em alto-mar, não fossem necessários reparos).

A tripulação de La Montaña, uma vez recuperada do desconforto de tal outro embarque, se distribuiu estrategicamente no convés, antecipando que a exaltação zapatista atingiria um de nós no mar.

Se isso tivesse acontecido, estaríamos preparados, acreditem. Devido à composição da delegação, na noite anterior discutimos como deveríamos gritar se isso acontecesse: «homem ao mar» ou «mulher ao mar» ou «outroa ao mar» ou «tercio ao mar» ou «choferólogo ao mar» ou «besouro ao mar», e assim por diante. O problema era que, para saber o que gritar, o SubMoy tinha que primeiro passar a lista e ver quem estava faltando, e depois, sim, dar a ordem de «pânico a sotavento» (que a delegação havia praticado com perfeição no Centro de Treinamento, área de Naufrágios e Afundamentos) para que tod@s gritassem. Como os segundos que seriam perdidos (na realidade, nas práticas eram longos minutos) poderiam ser decisivos, foi decidido gritar «Zapatista ao mar!» Nada disso aconteceu, o que poupou o grupo corsário maia (permissão em ordem das Juntas de Bom Governo zapatistas), de zombarias e escárnios às suas custas, no Bar de la Mota Negra, em Copenhague, Dinamarca.

A tripulação não tardou em se contagiar do entusiasmo zapatista e, apesar de serem marinheir@s com anos nas águas do oceano, viram novamente, agora através do olhar zapatista, um mar que, calmo, celebrava uma visita tão inesperada, resignado como estava antes da impertinência dos turistas de todo o mundo. O capitão do barco levou SubMoy para a área de comando e o colocou no timão, enquanto @s terci@s tiraram fotos… da água (por isso haverá muitas fotos de um mar vazio de interrupções).

A delegação marítima Zapatista, Esquadrão 421 propriamente dito, por sua vez, passava do entusiasmo para a cautela e animava a tripulação com perguntas sensatas: «E se um raio atingir e o barco quebrar, o que faremos? «E como o vento sabe que estamos indo para lá?» «E onde dorme o mar se tiver sono?» «E se o coração do mar ficar triste, como ele faz para chorar?» «De que tamanho é o coração para querer e amar o mar, que é tão grande?» «E assim como defendemos a terra, há alguém que defenda o mar?»

A tripulação de La Montaña: Capitão Ludwig (Alemanha), Edwin (Colômbia), Gabriela (Alemanha), Ete (Alemanha) e Carl (Alemanha), se olharam desconcertad@s e disseram para si mesm@s: «In welche Schwierigkeiten bin ich geraten?» (2) (exceto Edwin, que pensou em espanhol: «Caramba, em que tipo de confusão me meti»).

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E o bichinho? Bem, prevendo que iriam tentar jogá-lo ao mar (apesar de «ter liderado o embarque com valentia, graça e beleza sem igual» – assim disse ele -), ele subiu até o convés e, de lá, decretou, em galego impecável:

 

«Volverei, volverei á vida
quando a luz nos quebra os contras
porque tiramos todo o orgulho do mar,
nunca mais iremos afundar
que em sua memória não há volta a dar:
non nos humillaredes NUNCA MÁIS». (3)

Ao oriente, muito longe, as ondas na costa da Galiza repetiam: «nunca máis».

Dou fé.

O Gato-Cachorro.

Ainda México, maio de 2021.

(1) trecho da música de Vicente Fernandez, “El Hijo Del Pueblo”.

(2) «Em que tipo de confusão eu me meti?».

(3) trecho da música «Memoria da Noite», de Xabier Cordal.


Música: Fragmento de “Aires Bucaneros”. Letra do poeta Luis Palés Matos. Música: Roy Brown.


Música: Memoria da Noite. Letra: Xabier Cordal. Música: Bieito Romero. Interpreta: Luar Na Lubre, com as vozes de Rosa Cedrón e o maestro Pedro Guerra.

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Fuente: Enlacezapatista.ezln.org.mx