October 13, 2020
De parte de Ultimabarricada
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Autor: Élisée Reclus
Publicação original: Na revista La Société nouvelle, ano 5, tomo 2, 1889
Tradução:
João Black
Fonte: https://fr.wikisource.org


Por que somos anarquistas?

As poucas linhas que se seguem não constituem um programa. Elas não têm outro fim além de justificar a utilidade de elaborar um projeto de programa, que seria submetido ao estudo, às observações e às críticas de todos os revolucionários comunistas.

Talvez contudo elas encerrem uma ou duas considerações que poderiam encontrar o seu lugar no projeto que eu proponho.

Nós somos revolucionários porque queremos a justiça e em toda a parte vemos a injustiça reinar à nossa volta. É em proporção inversa do trabalho que são distribuídos os produtos do trabalho. O ocioso tem todos os direitos, até o de esfomear o seu semelhante, enquanto que o trabalhador nem sempre tem o direito de morrer de fome em silêncio: ele é aprisionado quando comete greve. Gente que se diz padre procura fazer acreditar em milagres para que as inteligências lhes estejam subjugadas; gente a quem chamam reis dizem-se provenientes de um amo universal para serem amos por sua vez; gente por eles armada corta, golpeia e fusila à sua vontade; pessoal em capa preta que se diz a justiça por excelência condena o pobre, absolve o rico, muitas vezes vende as condenações e as ilibações; comerciantes distribuem veneno em lugar de alimento, matam aretalho em vez de matar por atacado, e assim se tornam capitalistas honrados. O saco de moedas de ouro é o chefe, e aquele que o possui tem em seu poder o destino dos outros homens. Tudo isto nos parece infame e queremos modificar. Contra a injustiça fazemos apelo à revolução.

Mas «a justiça não passa duma palavra, uma mera convenção», dizem-nos. «O que existe é o direito da força!» Pois bem, se assim é, nem por isso somos menos revolucionários. Das duas uma, ou a justiça é o ideal humano e, nesse caso, reivindicamo-la para todos; ou só a força governa as sociedades e, nesse caso, usaremos a força contra os nossos inimigos. Ou a liberdade entre iguais ou a lei de Talião.

Mas porquê a pressa? dizem-nos todos aqueles que, para se dispensarem eles próprios de agir, esperam o tempo todo. A lenta evolução das coisas basta-lhes; a revolução dá-lhes medo. Entre eles e nós a história já se pronunciou. Nunca nenhum progresso, seja parcial ou geral, foi realizado por simples evolução pacífica — ele é sempre feito pela revolução súbita. Se o trabalho de preparação se opera com lentidão nos espíritos, a realização das ideias ocorre bruscamente: a evolução faz-se no cérebro, e são os braços que fazem a revolução.

E como proceder a essa revolução que vemos preparar-se lentamente na Sociedade, e que nos esforçamos por ajudar a fazer chegar? É agrupando-nos em orgãos subordinados uns aos outros? É constituindo-nos, como o mundo burguês que combatemos, num todo hierárquico, com os seus superiores responsáveis e os seus inferiores irresponsáveis, mantidos como instrumentos nas mãos dum chefe? Para nos tornarmos livres começaremos por abdicar? Não, pois somos anarquistas, vale dizer, homens que querem manter a plena responsabilidade dos seus atos, que agem em virtude dos seus direitos e deveres pessoais, que não têm ninguém por mestre e não são mestres de ninguém.

Queremos livrar-nos da proteção do Estado, não ter mais sobre nós senhores que nos possam comandar e pôr a sua vontade no lugar da nossa.

Queremos rasgar toda a lei exterior, guardando-nos ao desenvolvimento consciente das leis interiores de toda a nossa natureza. Suprimindo o Estado, suprimimos também toda a moral oficial, sabendo de antemão que não pode haver moralidade na obediência a leis incompreendidas, na obediência a uma prática de que nem sequer se procura prestar contas. Só há moralidade na liberdade. É também somente pela liberdade que a renovação se torna possível. Queremos manter o nosso espírito aberto a todo o progresso, a toda a ideia nova, a toda a iniciativa generosa.

Mas, se somos anarquistas, inimigos de todo o chefe, somos também comunistas internacionais, pois compreendemos que a vida é impossível sem agrupamento social. Isolados, nada podemos, enquanto que pela íntima união podemos transformar o mundo. Associamo-nos uns aos outros em homens livres e iguais, trabalhando numa obra comum e regulando as nossas relações pela justiça e a boa-vontade recíproca. Os ódios religiosos e nacionais não podem separar-nos, porque o estudo da natureza é a nossa única religião e porque temos o mundo por pátria. Quanto à grande causa das ferocidades e das baixezas, ela deixará de existir entre nós. A terra tornar-se-á propriedade coletiva, as barreiras serão removidas e então o solo, pertencendo a todos, poderá ser adaptado à aprovação e ao bem-estar de todos. Os produtos requeridos serão precisamente os que a terra pode melhor fornecer, e a produção responderá exatamente às necessidades, sem que nada se desperdice como no trabalho desordenado que hoje se faz. Do mesmo modo a distribuição de todas essas riquezas entre os homens será retirada ao explorador privado e feita pelo normal funcionamento de toda a Sociedade.

Não nos cabe traçar de antemão o quadro da sociedade futura: É à ação espontânea de todos os homens livres que compete criá-la e dar-lhe a sua forma, de resto incessantemente mutável como todos os fenómenos da vida. Mas o que nós sabemos é que toda a injustiça, todo o crime contra a dignidade humana, nos encontrarão sempre de pé para os combater. Enquanto a iniquidade perdurar, nós, anarquistas-comunistas internacionais, permaneceremos em estado de revolução permanente.

ÉLISÉE RECLUS.




Fuente: Ultimabarricada.wordpress.com