October 13, 2020
De parte de Federacao Anarquista Gaucha
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Arte: Rusha (Instagram @rusha_silva)

O 20 de setembro marca o Dia do Ga煤cho. Muitos exaltam os feitos da Revolu莽茫o Farroupilha, mas poucos conhecem a hist贸ria al茅m da vers茫o contada pelos de cima, porque propositalmente ela n茫o aparece nos livros. Sabemos que n茫o conv茅m ao sistema que o povo conhe莽a sua hist贸ria, conhe莽a seus verdadeiros her贸is. Sabemos tamb茅m que a mem贸ria coletiva 茅 importante para mantermos viva uma mem贸ria, hist贸ria e lembran莽a, pois ela tamb茅m cria e reproduz lugares sociais, imagin谩rios e significados. Assim, quando se est谩 narrando e resgatando o que foi a Revolu莽茫o Farroupilha, e se esconde ou n茫o se conta bem quem foram os Lanceiros Negros ou o que foi o Massacre de Porongos, por exemplo, isso n茫o 茅 por acaso. H谩 uma raz茫o ideol贸gica por tr谩s. Assim, precisamos recontar essa hist贸ria, desde baixo, para que se possa conhecer melhor o nosso passado e redescobrir os la莽os que ligam o povo ind铆gena e o povo negro e a cultura ga煤cha, pois ela tamb茅m nos pertence e tem origem das nossas veias.

Antes de entrar no hist贸rico da Revolu莽茫o Farroupilha, acreditamos ser importante, enquanto ga煤chas(os), fazer esse resgate de quem foi o Ga煤cho. Precisamos desconstruir essa figura do ga煤cho enquanto sujeito branco, tradicionalista e burgu锚s, que foi criada em cima de apropria莽玫es culturais e distor莽玫es hist贸ricas. O Ga煤cho, do qual temos orgulho e que carregamos no nome, era e 茅 o pobre, mesti莽o, sem-terra, marginalizado, que vivia na regi茫o dos pampas sul-americanos. Um sujeito miscigenado, mas que carregava predominantemente uma heran莽a cultural amer铆ndia (Guarani, Charrua, Minuano e Kaingang). Os ga煤chos viviam 脿 margem da nova ordem estabelecida pela violenta coloniza莽茫o europeia, pois haviam sido retirados das terras onde viviam coletivamente e em liberdade, tornando-se homens sem p谩tria e sem lei, muito temidos pelos estancieiros. Fazer mem贸ria a essa identidade livre e rebelde do Ga煤cho 茅 mantermos viva, em nossos cora莽玫es e em nossa veias, as nossas origens. 脡 tamb茅m resgatar a import芒ncia do negro e do ind铆gena para a forma莽茫o do povo ga煤cho e do Rio Grande do Sul.

Um dos mais antigos registros do ga煤cho, exposta no Centro Cultural Atahualpa Yupanqui em Buenos Aires (ARG)

Durante anos, a Revolu莽茫o Farroupilha vem sendo ensinada nas escolas mostrando o 鈥渉ero铆smo鈥 dos comandantes brancos e escondendo o fato de que centenas de negros participaram efetivamente da revolu莽茫o, sendo friamente exterminados em busca da liberdade. De 1835 a 1845 ocorreu um dos maiores conflitos regionais, que ficou conhecido, no Rio Grande do Sul, como Revolu莽茫o Farroupilha. Um conflito disparado pelos grandes propriet谩rios de terras por diverg锚ncias em quest玫es econ么micas, pol铆ticas e ideol贸gicas, dando in铆cio a uma guerra contra o governo imperial. No entanto, foi o povo ga煤cho, ind铆genas, pobres e negros escravizados, que foi enviado para os campos de batalha, pra lutar e morrer na guerra covarde e de trai莽玫es dos estancieiros. Assim foi com os Lanceiros Negros, que protagonizaram, por 10 anos, as batalhas ao lado dos farrapos. Eram negros escravizados recrutados junto aos estanceiros (seus 鈥渄onos鈥) que, com muita bravura, sem escudos e se protegendo do mau tempo usando poncho de l茫, que servia como cama, cobertor e agasalho. Eles lutavam com muita sede de ganhar, pois a condi莽茫o era que, ao final da guerra, eles conseguissem a t茫o sonhada liberdade. Assim entramos na parte da hist贸ria t茫o omitida. No final da guerra em 1845, os farrapos e os imperiais se preparavam para assinar o tratado de paz (tratado do Poncho Verde), mas discordavam num ponto: a liberta莽茫o dos Lanceiros Negros. O Imp茅rio n茫o aceitava a prometida liberdade e queriam que eles voltassem 脿 condi莽茫o de escravos.

Ilustra莽茫o de Thiago Krening

A solu莽茫o para esse impasse resultou no Massacre de Porongos, o 煤ltimo conflito da guerra, onde os l铆deres farrapos decidiram virar as costas e trair os lanceiros que pelearam com tanta bravura durante a revolu莽茫o, numa emboscada combinada entre David Canabarro e Duque de Caxias. No dia 14 de novembro de 1844, os farroupilhas desarmaram as tropas de Lanceiros Negros e os imperiais atacaram-nos covardemente, de surpresa. A trai莽茫o resultou na morte de centenas de lanceiros negros. Os lanceiros foram dizimados e mortos brutalmente, e os que restaram vivos foram novamente for莽ados 脿 condi莽茫o de escravizados. Como o destino dos lanceiros negros era o maior impasse para que o tratado de paz fosse selado, ap贸s esse exterm铆nio tramado, a 鈥減az鈥 da sociedade escravocrata volta a reinar a pre莽o de sangue inocente. Mais um triste epis贸dio da hist贸ria ga煤cha e um desonroso final para uma revolu莽茫o que tanto nos enche de 鈥渙rgulho鈥. Os ditos 鈥渉er贸is鈥 farroupilhas s茫o covardes traidores. No 20 de Setembro, temos que lembrar que povo que n茫o tem virtude acaba por escravizar.

Que tenhamos aprendido com nossos antepassados que n茫o devemos entrar no jogo de nossos inimigos, pois a hist贸ria nos mostra que a trai莽茫o 茅 certa. H谩 mais de 500 anos, o nosso povo negro e ind铆gena 茅 resist锚ncia nesse Brasil, mesmo sendo sob o nosso sangue e suor que ergueram essa dita 鈥渃iviliza莽茫o鈥. A persegui莽茫o, exterm铆nio, viola莽玫es e marginaliza莽茫o sobre os nossos povos se mant锚m como um projeto de Estado que est谩 em curso h谩 s茅culos nesse pa铆s. Sabemos que a peleia pela nossa verdadeira liberta莽茫o ainda 茅 longa e ela depende somente da nossa organiza莽茫o, luta e resist锚ncia. Pois sabemos que 茅 somente o nosso povo organizado que vai conquistar uma vida digna e um mundo novo.

Nossos her贸is n茫o viraram est谩tua, eles morreram lutando contra os que viraram!

Salve os Lanceiros Negros, presentes hoje e sempre na hist贸ria do povo Ga煤cho!




Fuente: Federacaoanarquistagaucha.wordpress.com