October 13, 2020
De parte de Entranhas
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Texto de Elisa Rosas e Ra铆ssa Menezes

As reflex玫es desse texto foram produzidas por ocasi茫o de nossa participa莽茫o na mesa 鈥淐aminhos da resist锚ncia abaixo e 脿 esquerda em tempos de autoritarismo neoliberal鈥 durante o lan莽amento do livro 鈥淣茫o leve flores 鈥 Cr么nicas etnogr谩ficas com o Movimento Passe Livre-DF鈥 de Leila Saraiva.


Desde que iniciamos este portal, afirmamos que nossa proposta 茅 pensar a partir da esquerda, considerando a riqueza e a diversidade das an谩lises pol铆ticas das mulheres, que tantas vezes nem sequer s茫o elaboradas, por falta de 鈥渆spa莽o interno鈥 diante de tantas coisas que nos consomem, e mesmo quando s茫o elaboradas, poucas vezes s茫o ouvidas nos espa莽os coletivos.

A quantidade de movimenta莽玫es que tivemos este ano pelo mundo 鈥 como a ola verde: a campanha pela legaliza莽茫o do aborto na Argentina, as lutas das mulheres curdas, o encontro zapatista de mulheres, a resist锚ncia feminista contra o fascismo durante as elei莽玫es no Brasil 鈥 mostram a for莽a daquilo que produzimos como coletivos de mulheres. Sintonizadas 脿s reflex玫es de nossas companheiras ao redor do globo, em 2018 publicamos materiais sobre:

鈥 a greve dos caminhoneiros, em entrevista com Francine Rebelo e Larissa Riberti;
鈥 as repercuss玫es das manifesta莽玫es de 2013, com a Camila Jourdan;
鈥 a import芒ncia da esperan莽a e da organiza莽茫o social, em textos da Ra铆ssa Menezes e da Leila Saraiva;
鈥 um relato e questionamentos sobre a morte de Marielle Franco, por Luara D.;
鈥 reflex玫es sobre autodefesa, em uma resenha feita por Bruna Coelho sobre o livro da fil贸sofa francesa Elsa Dorlin
鈥 as mulheres nos projetos de governo dos presidenci谩veis, em an谩lises da Elisa Rosas e Camila Maia;
鈥 os lindos retratos de mulheres em movimentos sociais da fot贸grafa Luara D.
鈥 uma oficina sobre o Direito 脿 cidade, sistematizada por Ra铆ssa Menezes;
鈥 uma reflex茫o sobre a situa莽茫o do feminismo na Fran莽a, por Isadora Xavier.

Observamos assim, a grande import芒ncia da produ莽茫o de conte煤do sobre as conjunturas atuais, pois muitas vezes na hist贸ria a voz das mulheres foram conhecidas tardiamente, n茫o raro depois que j谩 morreram. Podemos trazer o exemplo de Anast谩cia, que se apresentou recentemente em Bras铆lia em um evento em comemora莽茫o ao dia do forr贸. Anast谩cia n茫o 茅 t茫o conhecida quanto seu companheiro de composi莽玫es 鈥 Dominguinhos 鈥 mas foi ela quem escreveu praticamente todas as letras das m煤sicas gravadas por ele. Sem precisar adentrar nos pormenores desse tipo de rela莽茫o machista, antigamente t茫o comum entre os artistas e intelectuais, 茅 tocante e empoderador ver Anast谩cia em cima do palco cantando suas composi莽玫es, se apresentando enquanto autora e podendo ter, em vida, pelo menos um pouco do reconhecimento que lhe pertence. Nesse sentido, o Entranhas 茅 um pouco como esse palco, 茅 um portal de produ莽玫es vivas, como vivas insistimos em estar. N茫o buscamos o reconhecimento p贸stumo do patriarcado nem tampouco o reconhecimento de uma produtividade imediatista e lacradora sem reflex玫es aprofundadas que o capital costuma impor.

A respeito da pergunta de como resistir no pr贸ximo ano, temos como certa a import芒ncia da auto-organiza莽茫o das mulheres, tendo em vista o peso das manifesta莽玫es de rua durante a campanha eleitoral, sendo a 煤nica pauta que conseguiu unir ideologias e segmentos da sociedade contra o discurso mis贸gino e fascista. Sabemos que mesmo tendo sido o maior movimento em n煤mero de pessoas, n茫o foi o suficiente para impedir a elei莽茫o de Bolsonaro e tantos outros candidatos de sua linha. Por isso 茅 preciso que repensemos as formas dessa resist锚ncia, afinal j谩 n茫o basta ser contra um representante e a favor de outro, menos pior. A exemplo do que vem ocorrendo em outros pa铆ses, 茅 preciso questionar na rua o modelo de representatividade. Essa 茅 a pot锚ncia da luta para os pr贸ximos anos, j谩 que motivos para insurg锚ncias populares n茫o faltar茫o.

Estejamos sim atentas 脿s pautas que nos dizem respeito e que nos afetam imediatamente nossos corpos, como o aborto, o estupro, a educa莽茫o sobre g锚neros e sexualidades, mas que isso n茫o deixe invisibilizar quest玫es que nos afetam as entranhas, ainda que por outras vias: a precariza莽茫o do trabalho em pontos que atingem especificamente as mulheres trabalhadoras de todas as idades; a retirada dos benef铆cios sociais que permitiram algum respiro 脿s chefes de fam铆lia e alguma dignidade 脿s pessoas em situa莽茫o de rua; a quest茫o da demarca莽茫o de terras e o agravamento das pol铆ticas de exterm铆nio dos povos negros e ind铆genas, que quando n茫o tiram a vida das mulheres tiram a vida de seus filhos ou os afastam da conviv锚ncia materna 鈥 seja quando o Estado reduz a maioridade penal ou leva as crian莽as para abrigos, como tem acontecido com os Guarani e Kaiwo谩. Assim, 茅 preciso lembrar que solidariedade n茫o pode ser apenas um sentimento, mas tamb茅m uma forma de organiza莽茫o.

Voltando 脿s entranhas, quer铆amos trazer aqui uma reflex茫o da soci贸loga Silvia Rivera, que conta sobre a decapita莽茫o que os colonizadores espanh贸is promoveram a Inka Atahualpa, em 1532 e a Tupaq Amaru I, em 1571 [1]. Segundo a autora, essas decapita莽玫es, mais do que aniquilar a organiza莽茫o social e pol铆tica dos povos nativos, representam a tentativa do poder colonial de desorganizar quem tentava resistir. Para ela, mais do que uma aniquila莽茫o, estas a莽玫es deixaram o corpo pol铆tico boliviano um pouco perdido, desorganizado, desequilibrado.

Isso porque por mais que os assassinatos destes l铆deres representem um 鈥渄escabe莽amento鈥 daquela organiza莽茫o pol铆tica, naquele contexto, a cabe莽a n茫o prevalecia sobre o resto do corpo, como geralmente acreditamos. A cabe莽a era um complemento do chuyma 鈥 das entranhas 鈥 e n茫o quem direcionava o pensamento. Aqui nos identificamos, tanto na dificuldade de se organizar, neste nosso corpo pol铆tico prec谩rio, quanto na viv锚ncia pol铆tica visceral, profunda e n茫o somente de uma suposta racionalidade mental europeia.

脡 pela pr谩tica descentralizadora que queremos seguir. Isso se reflete quando optamos por usar diversos tipos de linguagens: a fotografia, a an谩lise, a resenha, a ilustra莽茫o, a entrevista, o desenho. Contamos ainda com contribui莽玫es geralmente invis铆veis de edi莽茫o, revis茫o, tradu莽茫o, divulga莽茫o e manuten莽茫o da p谩gina, feito pelo coletivo cotidianamente. Ainda entre os desafios para 2019 est茫o o de contarmos com trabalhos de outros perfis de mulheres e suas linguagens, pensando aqui em uma diversidade geracional, 茅tnica e de g锚neros. Neste sentido, continuamos a convidar as mulheres a compartilharem suas palavras, a botar as tripas para fora e a desentranhar o mundo, a partir das nossas a莽玫es e das nossas elabora莽玫es feministas, abaixo e 脿 esquerda.

[1] Rivera Cusicanqui, Silvia. Ch鈥檌xinakax utxiwa : una reflexi贸n sobre pr谩cticas y discursos descolonizadores 鈥 1a ed. 鈥 Buenos Aires : Tinta Lim贸n, 2010.

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An谩lise Pol铆tica feita por mulheres de esquerda

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Fuente: Entranhas.org